
Em sua geografia e história, Salitre se torna uma sala de aula necessária, a céu aberto, disponível à compreensão do passado e do presente de uma nação desafiada a enfrentar, para o futuro, o racismo estrutural e institucional
Num entroncamento de três Estados do Brasil radica-se Salitre, região do Cariri, com seu profuso quilombismo. Por este pequeno município cearense espalham-se nove comunidades quilombolas. De pronto, uma Salitre Quilombola se apresenta, a reunir ensaios arquetípicos da cultura afro-brasileira, reavivando o perfil identitário de uma nação. A se ver!
Em sua geografia e história, Salitre se torna uma sala de aula necessária, a céu aberto, disponível à compreensão do passado e do presente de uma nação desafiada a enfrentar, para o futuro, o racismo estrutural e institucional, a fim de se efetivar um Brasil democrático, com cidadania igualitária universalizada, à luz do ordenamento jurídico nacional. Afastado do litoral nordestino, o “quilombismo salitrense” tange cordas nostálgicas da diáspora africana em terras alencarinas. Uma pequena África brasílica, pois, aqui veio se amocambar.
Cabe análises as mais diversas para se compreender um fenômeno multifacetado da formação social brasileira, e o que dela se conservou. A existência de nove comunidades dispersas sugere uma federação de quilombos, com um centro político tal e qual a Cerca Real do Macaco, capital do Quilombo dos Palmares, onde Ganga-Zumba e depois – após sua cooptação e morte – Zumbi passou a dirigir o Conselho Político de todos os mocambos ali reunidos, no total de pelo menos 18, segundo o historiador Edison Carneiro, encerrados na Serra da Barriga entre os estados de Alagoas e de Pernambuco.
Cada mocambo, lá, como cada comunidade quilombola, cá, exprime singularidades identitárias. Se Aqualtune, avó de Zumbi, foi líder de um mocambo, em Salitre o protagonismo dirigente feminino também se manifesta. Se os “Filhos de Dandara”, em lembrança da companheira de Zumbi, identifica-se como grupo de danças originárias da cultura africana, em uma comunidade; já em outra, a ênfase ocorre em histórias de encantamento.
Estar entre Ceará, Pernambuco e Piauí remete a alguma semelhança com União dos Palmares? Assunto a se pesquisar. Abordagens e perspectivas histórico-sociológicas, político-culturais, místicas, cosmológicas, éticas, psicológicas, todas de cepa pedagógica, remetem ao caminho, emancipatório do quilombismo: flecha de combate mirada ao coração do racismo.
O mapa que traça este caminho transgeracional ainda se vê no penteado de jovens mulheres negras salitrenses. O belo estético da negritude expresso nas tranças de um cabelo, onde os olhos da casa-grande, branca, via somente o exótico e ingênuo penteado, guarda ainda a memória de estratégias de luta, correio das informações para a práxis político-revolucionária em gestação. Por essa e outras, Salitre repete Palmares.
Fonte: https://mais.opovo.com.




