Artigo | “Belchior e a cosmologia do Ypê”, por Luiz Carlos Diógenes

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Por Luiz Carlos Diógenes

Mente de artista, que finge mas não mente, comumente é como mente do pé de Ypê. Cosmóloga, confunde-se na seara da ecologia profunda. Coesão, desde sempre, sempre provoca ativa mente. Em tempos do agora distópicos, carbonizados, Belchior convoca ordinária mente ao revolucionário processo de sua ecologização. Pela sua Ypê, embalados pela música profética, somos convidados a contemplar, nas faldas da “dançarina de pedra”, este encontro de mentes, enraizadas na Natureza e na Cultura.

Em respeito à sustentabilidade de vida, dinâmica, transgeracional da humanidade, há que compreendermos a fusão natural da arte na ecologia, originando uma poética cidadania ecológica planetária. Historicamente situados, pois, falamos do Ypê limpo, nosso símbolo da flora, natural. Ypê que salva vidas humanas sufocadas por nuvens baixas envenenadas, já deficitárias na contabilidade de fotossíntese. Nos versos do Ypê belchiorano, mente florada em superávit filosófico-poético, salvamo-nos da estupidez. Humana, que apenas mente.

Ambas as mentes, do Ypê e do artista, são florescências que renunciam à ilusória posse efêmera das coisas, do ter concupiscente. Só assim vivem para ser mais. Buscam o ser ecológico! Entremos nesta floresta, sob orientação do oráculo nos versos do poeta: “Vede o pé de Ypê, apenasmente flora / Revolucionariamente / Apenso ao pé da serra”. Saber-se, na sabedoria, fragmento da Natureza, nada mais que substância humanamente natural. Natural mente humana, no apelo do poeta, não é outra, senão a do Ypê. A florescência de ambas exala o cheiro do ventre da terra, onde ambas se nutrem e se sustentam, por vínculos de raiz. O espetáculo da química do Ypê, ao florar, em revolucionar mente, ensina que só mente revolucionada é mente que flora.

Espelhar-se no pé de Ypê, em comunhão de identitária florescência, é o ato revolucionário, cotidiano, de consciência ética ecológica. Responsabilidade cidadã entronca-se nos direitos de todos viventes da teia planetária. Seria o estágio da mente florada. Assim, melhor se cumpriria o pacto intergeracional, humano, não mais que humano, que resta ameaçado pela mente sem flor da geração, sem futuro, do agora.

Luiz Carlos Diógenes é Diretor de Cidadania, Inclusão Social e Cultura da Fundação Sintaf.

Artigo publicado no O Povo.

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